domingo, setembro 30, 2007

qualidade de vida

sarcófago aberto, saiu pra rua a contar dorianas e dorianos. todos sorriam com 67 dentes e exibiam em êxtase seu IMC abaixo de 25. o verão acenava, bafolejante, que acabara a trégua: depois de algum tempo pequeno, gelado, amarelo e rosa, os ipês torrariam e os 45 graus cozinhariam seus miolos já entorpecidos pela cana. empurrou os 104 quilos para dentro da calça de sarja. alguns sobraram do lado de fora, ele os carregou na cabeça.
chutou uns cascalhos e vendedores da Palavra do Senhor (graçasadeus.ódeuspaitodopoderoso, todahonraetodaglória, agoraeparasempre, na uni...) saíram esbaforidos porque a camisa de percal e de mangas compridas era um suplício consentido. mas deus aceitava todo e qualquer sacríficio com sua maquininha de calcular créditos e débitos para a eternidade. (eternidade vem de éter?anestesia, não sentir... a suprema felicidade? seria isso?)
comprou o oldpaper gaúcho e a previsão para escorpião naquele dia era foda: "abra-se para a felicidade. ela não bate à sua porta. deixe a tramela destravada. agradeça por tudo o que obteve até agora." ele pensou numa lista de 3 coisas e no jk térreo e com condomínio vencido.
tomou uma condução para o Mercado pra comprar peixe de rio. era passe livre, e precisou disputar a tapa um lugar grudado no cano seboso do busum. faria com alecrim e batatas, manjerona e cominho. no zaffari, a traíra custava 19 reais o quilo. salário contém sal. peixes de rio não. seu salário nunca alcançara peixes de rio. no mundo, as traíras se ofereciam de graça para a celebração. que coisa.
o Mercado estava em obras: era dia de santa jennifer. então entrou no Museu pra enxaguar a cabeça das últimas marretadas. hordas de famílias sem educação e com 3 filhos sem qualquer noção passavam o dedo na tela de Renoir para ver se descascava.
desistiu da exposição e foi pra casa, agarrando com carinhosa sofreguidão seu travesseiro de penas de pinto holandês comprado na tentiva de dormir em paz ainda em vida. acendeu um incenso de boas misturas. na Índia deveria ser diferente. traíras custariam barato. no Ganges, haveria gôndolas servindo trapiras aos visirtantes. com alcaparras.
o vizinho da frente, recém dono de cobertura, emergente promissor da nata da sociedade portoalegrense, espeto em punho e a barriga cheia de contentamento, recebia os parentes com roupinhas de festa. crionças berravam empapuçadas de coca e excesso de atenção. poodles da vizinhança ameçavam moscas de morte e repetiam ladainhas em contralto.
levantou inchado de tédio. encomendou pela internet uma deusa inflável, 85depeito102decoxa47decintura e vagina com sistema de média a forte compressão. composição: látex norueguês. tempo de entrega:14 dias. aceitava convênio: sim, desconto em folha.
sorriu satisfeito com suas novas próteses. removíveis. portáteis. ainda vinha com 3 tamanhos de seios variáveis, um canivete, um tacape e marshmellow colorido. levaria a felicidade para Pinhal e para Punta. dentro de metade de um mês, o mundo seria pequeno.