quarta-feira, abril 18, 2007

sobre viver - reflexões não etílicas de uma ceramista enlameada

não há mais o que dizer sobre coisas mortas ou com tendência suicida. as palavras perderam a função, rígidas demais para um mundo cambiante, como disse Borges. palavras são mais para escrever ficção do que para levar a sério. mais para enganar do que para convencer. ou mais para convencer da irrealidade.ou mais desenhos de pedaços de idéias, onde às vezes a forma se sobrepõe ao conteúdo.
mas tendo que seguir a me dizer algo, pois devo me fazer visita, agora é internalizar a pauta, organizar os parágrafos, compor orações onde o sujeito não seja indeterminado, preterir pretéritos e finalmente saber o que são dígrafos. e me puxar em interpretação de texto: eu era boa nisso em 1904.
em suma, sem desperdícios com miudezas ou miúdos, carnes-de-pescoço ou assemelhados.
em último caso, ao brócoli, como já disse ao meu amigo paulista.
agora as palavras serão primeiro para eu mesma. meu umbigo num altar.translação diária, cadê a minha aura? perdi, num desses bambolês que insisti em fazer sabendo que o movimento acabaria por me paralisar?
que distração a minha. esqueci de quem eu era, da matéria da qual fui feita, das outras todas, 23 ao todo, que fui buscar durante os anos de prospecção e muito, muito saco. esqueci do processo trabalhoso que é transformar as argilas mais plásticas nas cerâmicas mais impenetráveis.
chama-se ponto de sinterização: lá pelas tantas, a uma certa temperatura de queima, os poros do barro fecham. e você não perde a sua matéria, ou o que você contém e preza, para o mundo. trocas de sentido único não são trocas: são perdas de si. e eu nunca mais vou me perder de mim. queima de alta temperatura. ao forno, pois.
ser pedra, fundamental.